Uma frase de Albert Einstein e uma de Goethe:

Há dois caminhos para viver a sua vida. Um é como se nada for milagre. O outro é como se tudo o for.
Albert Einstein

Ninguém está mais desesperadamente escravizado que os que acreditam, falsamente, ser livres.
Johann Wolfgang von Goethe

terça-feira, 21 de julho de 2015

O direito ao disparate

Desde pequeno defendo o direito ao disparate. A censura, no tempo da tirania salazarista, terá contribuído para um “liberalismo” tão radical mas creio que é do temperamento -- e cada um tem o direito a ser como é.
Ao ver pessoas sensatas aceitar que o planeta está em risco mas dizerem que temos que continuar a martirizá-lo, eu mostro os dados que há mas respeito o direito ao disparate.
Quando reconhecem que o sistema monetário internacional é uma forma imensa de agiotagem, que a moeda é criada a partir do nada e que ficamos a pagar juros aos seus “criadores” e me dizem que tem que ser assim  -- eu recorro ao direito ao disparate e aceito o “argumento” -- explicando que há sempre alternativas, embora a tarefa que a humanidade enfrenta seja “colossal”. Se me dizem que “por enquanto” tem que ser assim, isso parece-me mais sensato -- mas sejamos conscientes!

Isto de respeitar o livre-arbítrio, esta recusa radical de exercer poder sobre os outros -- e de que o exerçam sobre nós -- é posição antiga dos anarquistas mas é, também, a posição contemporânea da filosofia popular em voga, que se vê com raízes nos Vedas, a do chamado movimento “new age”, repleto de deliciosos disparates!

Se nos despirmos da dita “cultura”, se procurarmos a criança em nós, curiosa do mundo, dita “ingénua” pela dita cultura, experimentadora por natureza, desprovida de poder sobre os outros por razões óbvias, e olharmos, com esse olhar, o mundo, que vemos?
O mesmo de sempre, o mistério: porque estou aqui?, como me libertar? -- creio que a criança não pergunta “quem sou?”, só mais tarde, devidamente “adulterados”, nos perdemos de nós mesmos.

Se olharmos para o mundo com olhos de ver, ele é absurdo, assustador. Dá vontade de aceitar a sugestão de nos focarmos nos brinquedos de plástico que nos dão, de deixarmos de fazer perguntas “sem sentido”, como “qual é o sentido da vida” -- as pessoas grandes tendem a não respeitar o direito ao disparate!
E ele há tantos brinquedos! A ciência e a técnica, a arte, as religiões todas, as filosofias, o futebol -- porque não nos entretemos e deixamos de fazer perguntas?

Porque estes são tempos de mudança, é tempo de acordar.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Missão cumprida

O feitor da Europa parece contente: mostrou ao mundo o poder dos seus patrões, tendo passado por cima do voto dos gregos, tem o Euro a caminho da paridade com o dólar, como lhe fora encomendado...
E pode anunciar, depois do Fundo Monetário Internacional o ter feito, que sempre considerou a dívida grega insustentável -- quando, na verdade, só hoje o disse:
“It’s uncontroversial that debt relief is necessary and I think that nobody has ever disputed that. The issue is what is the best form of debt relief within our framework, within our legal institutional framework.
I think we should focus on this point in the coming weeks.”
E assim sobem as cotações das acções nas bolsas, os patrões já tendo comprado o que queriam, e assim pode dar fim a mais uma jogada, com dados viciados.
Podemos perguntar: Se o FMI considerava necessário, em 2010, reestruturar a dívida grega, se o BCE também... terá sido o sr. Durão Barroso, o terceiro parceiro da Troika, quem os convenceu a afundar ainda mais a Grécia, durante cinco anos? E é desse, também, a ideia da austeridade, que retraiu a economia grega de 1/4?
O sr. Durão Barroso só tem ideias boas para os negócios, como aquela de assustar os irlandeses com a saída da União Europeia, depois de eles dizerem NÃO, no referendo sobre o Tratado de Lisboa: propôs-lhes, então, um novo referendo e conseguiu o sim, creio que os irlandeses compreenderam que ele continuaria a pedir um novo referendo até dizerem SIM!
Vendo o que se vai passando, e com a ajuda de documentários como este, já de 2011, que nos falta para entender que não vivemos em democracia mas numa oligarquia, apátrida, em que pontifica o "complexo militar-industrial", como lhe chamam os americanos, sediado em Wall Street, New York?
Parabéns ao feitor: missão cumprida, "tudo como dantes, no quartel de Abrantes".

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Um referendo global



Et j’étais fier de lui apprendre que je volais. Alors il s’écria :
– Comment ! tu es tombé du ciel ?
– Oui, fis-je modestement.
– Ah ! ça c’est drôle…
Et le petit prince eut un très joli éclat de rire qui m’irrita beaucoup. 
Je désire que l’on prenne mes malheurs au sérieux.
Puis il ajouta :
– Alors, toi aussi tu viens du ciel ! De quelle planète es-tu ?
                          Antoine de Saint-Exupéry, Le Petit Prince, pg 13

– Adieu, dit le renard. Voici mon secret. Il est très simple : on ne voit bien qu’avec le cœur. L’essentiel est invisible pour les yeux.

Dizem "os sábios”(?) que os sábios reis magos viram uma conjunção de Júpiter com Vénus, perto de Regulus, uma estrela que fica na constelação de Leão (na sua mão direita), e se meteram no caminho indicado, que ia no sentido de Jerusalém. Era uma conjunção muito rara, muito rara, três símbolos reais e a Virgem, e eles sabiam que ia nascer o Rei dos Reis.
Três "pics" de Regulus, o "pequeno rei"
Hoje, não é preciso ser sábio para ver essa conjunção, basta descarregar o SkyView, quemquer a encontra, no céu. Ela é muito, muito rara, mas está lá, à vista de um smart phone qualquer, porque, agora, está abaixo do horizonte, mas, daqui a umas horas, Vénus é a estrela da manhã! (de facto, nestes dias de Junho, vê-se melhor ao entardecer, põem-se depois do Sol, a Ocidente, claro).

Acho graça que o referendo me apareça ao mesmo tempo da estrela, apareceram os dois antes de os escrever. E acho graça que não seja um referendo para pessoas grandes, essas ocupam-se com "coisas sérias" e não devem ter chegado aqui:

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Desinformação governamental desmascarada

Diz-se que Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitler, terá dito (mas parece que a frase não é dele) que “uma mentira, suficientemente repetida, se transforma numa verdade”. As nossas sociedades contemporâneas deixariam esse governante inovador de boca aberta, porém!
Deixo aqui, na íntegra, uma carta aos portugueses de um cidadão honesto, Miguel Mattos Chaves, 
Gestor, 
Doutorado em Estudos Europeus (dominante: Economia), Auditor de Defesa Nacional, indignado com a desinformação:
Meus Prezados Amigos,
Um pouco farto de ver e ouvir certas histórias, que pressentia, mal contadas, decidi-me a fazer as minhas contas a partir das Fontes Oficiais (INE e EUROSTAT).
Tem sido dito que os Pensionistas e os Reformados, junto com as Despesas de Pessoal do Estado, significariam, em conjunto, cerca de 75% a 78% das Receitas Públicas. Fui então verificar.
Ora sendo eu um cidadão preocupado com o desenvolvimento do meu País e com o Bem-Estar dos portugueses, achei que este número, a ser verdade, seria muito elevado e traria restrições severas a uma Política de Desenvolvimento e de Crescimento a Portugal.
Mas depois de tanto ouvir, comecei a achar estranho que estes números fossem repetidos até à exaustão. E decidi investigar eu próprio da veracidade de tais números.
Eis os Resultados:

 QUADRO no 1 - Despesas com Pensões e Reformas
(Unidade: mil milhões de euros)
ANOS

2011
2012
2013
P.I.B.
237,52 €
212,50 €
165,67 €
Pensões e Reformas
13,20 €
13,60 €
14,40 €
Percentagem do P.I.B.
 5,56 %
 6,40 %
 8,69 %
Total de receitas
 77,04 €
 67,57 €
 72,41 €
Percentagem, do total de receitas, das Pensões e Reformas


17,13 %


20,13 %


19,89 %

Meu comentário:
Qual não foi o meu espanto quando face a “doutas” opiniões de Economistas do Regime, de Jornalistas (ditos de economia) e de Políticos em que todos coincidiam em que esta Rubrica rondaria os 30% a 35% das Receitas do Estado e cerca de 15% a 17% do PIB, vim a verificar os resultados do Quadro no 1 que acima publico.
Isto é:
As Reformas e as Pensões, mesmo numa Economia em Recessão, significaram entre os 17,13% e os 20,13%, sobre as receitas totais do Estado. Muito longe, portanto, dos anunciados 30% a 35%.
Mas se a análise for feita sobre o PIB então o seu significado variou, repito num quadro de uma Economia em Recessão, entre os 5,56% e os 8,69%.
Portanto muito longe do anunciado pelos “especialistas”....
A coberto dessas pretensas “realidades” foram cometidos os mais soezes ataques a esta parte da população portuguesa. Parafraseando o Prof. Doutor Adriano Moreira – “estamos em presença de um esbulho”.
NOTA: Por uma questão de educação não quero adjectivar mais as declarações sobre a matéria da Sra Ministra das Finanças e seu antecessor, nem do Sr. 1o Ministro, já que os restantes declarantes deixaram de me merecer qualquer respeito.
 QUADRO no 2 - Despesas com Pessoal do Estado
(Unidade: mil milhões de euros)

ANOS

2011
2012
2013
P.I.B.
 237,52 €
 212,50 €
 165,67 €
Despesas com pessoal do Estado

11,30 €

10,00 €

10,70 €
Percentagem do P.I.B. dessas despesas

4,76 %

4,71 %

6,46 %
Total de receitas
77,04 €
 67,57 €
 72,41 €
Percentagem, das despesas com pessoal do Estado, do total das receitas



14,67 %



14,80 %



14,78 %

Meu comentário:
Devo confessar que aqui, nesta rubrica, o meu espanto ainda foi maior, dada a prolixa comunicação sobre este tema proferida pelos actores acima referidos.
E feitas as contas, (quadro no 2 acima), e juntando então os dois, os
resultados são na verdade os seguintes:
 Quadro no 3 – Despesas com Pensões e Reformas + Custos c/ Pessoal

 (Unidade: mil milhões de euros)


ANOS

2011
2012
2013
P.I.B.
 237,52 €
 212,50 €
 165,67 €
Despesas com pensões + pessoal do Estado



 24,50 €



23,00 €



25,10 €
Percentagem do P.I.B. dessas despesas


10,31 %


11,11 %


15,15 %
Total de receitas
77,04 €
 67,57 €
 72,41 €
Percentagem, do total das receitas, das despesas com Pensões e Reformas + com Pessoal do Estado.






31,80 %






 34,92 %






34,66 %
Ou seja:
A SOMA das Pensões e Reformas com as dos Custos de Pessoal do Estado, somam (numa Economia em Recessão) entre os 34,92% (incluindo aqui as indemnizações de mútuo acordo das rescisões então efectuadas) e os 31,80% sobre as Receitas Totais do Estado;
e entre 15,15% (incluindo aqui as indemnizações de mútuo acordo das rescisões então efectuadas) e os 10,31% sobre o Produto Interno Bruto.
OU SEJA:
Menos de Metade dos números anunciados pelo Sr. 1o Ministro e seus Ministros das Finanças, para falar de actores políticos relevantes, deixando de lado as personalidades menores que pululam nas Televisões, Rádios e Imprensa escrita, que passei assim a tratar dada a sua falta de seriedade intelectual.
E a coberto disto se construiu uma Política do agrado do Sistema Financeiro, por razões e números que aqui não vou referir, e dos Credores (por razões que aqui também me dispenso de enumerar).
CONCLUSÃO:
Estamos a ser enganados deliberadamente por pessoas que têm e prosseguem uma filosofia política bem identificada e proveniente dos teóricos da Escola de Chicago (a Escola Ultra Liberal), apesar de um dos seus maiores expoentes, o Sr. Alan Greenspan – ex- Governador do FED (Reserva Federal norte-americana) – ter pedido desculpa por ter acreditado nela e ter permitido os desmandos do sector financeiro que nos trouxeram até às crises das Dívidas Soberanas, embora ajudados pela subserviência, incúria e incompetência de boa parte das classes políticas ocidentais.
Espero ter sido útil neste meu escrito. Na verdade, sendo um homem da Direita Conservadora, o meu primeiro Partido é Portugal. Os Partidos Políticos são, para mim, apenas Instrumentos para o engrandecimento de Portugal. Se não cumprirem esta missão então, para mim, não servem para nada. E vejo, com extremo desgosto, o meu próprio Partido – o CDS-PP, metido nesta situação degradante para Portugal e para os Portugueses sabendo que há altern
ativas. E acima de tudo odeio a mentira.
Está na hora, na minha opinião, de reformar e modificar o sistema político vigente, sob pena de irmos definhando enquanto Nação Independente.
 
Com os meus melhores cumprimentos
Miguel Mattos Chaves
Gestor
Doutorado em Estudos Europeus (dominante: Economia) Auditor de Defesa Nacional
O Lixo da Terra: Uma bela analogia com o lixo nas nossas cabeças, com a desinformação.
Cada um destes pontos corresponde a um satélite artificial, normalmente são detritos, identificados.


domingo, 5 de julho de 2015

O referendo é uma forma de democracia directa

Os gregos não se deixaram intimidar, recusaram obedecer a medidas que continuariam a afundar a economia e a empobrecer as pessoas.
Friso do templo de Zeus em Olímpia:
Apolo impondo a ordem aos centauros 
Em democracia o poder está no povo. Infelizmente, Europa não vive em democracia mas em oligarquia, que não tem pátria: os fabricantes de notas habituaram-se a levar juros pelo seu serviço, como se tivessem criado riqueza ao criar euros, ou dólares.
O Banco Central Europeu deve ser controlado democraticamente mas, de facto, tem accionistas, que, “por acaso”, com algum disfarce, coincidem com os donos do mundo. Como, “por coincidência", Mario Draghi foi empregado do Goldman Sachs! O BCE apresenta lucros aos seus accionistas, os quais decidiram desvalorizar o euro -- porque lhes convém. Como o peso da Grécia no euro é diminuto, precisaram de fazer um grande espalhafato para justificar a desejada desvalorização.
Os centauros, meio animal meio humanos,
eram selvagens que só acreditavam na força
Com o NÃO no referendo, a democracia e a dignidade do povo grego ganharam. Mas os donos do dinheiro, que querem a paridade euro/dólar, também ganharam.

O trabalho do nosso tempo é criar a democracia directa, usando a informática. E será preciso que o povo soberano destrua as máquinas de propaganda que o não deixam ver a realidade: o dinheiro é um instrumento para o comércio, do qual precisamos, e tem donos a quem pagamos o aluguer. Os cidadãos devem ser os verdadeiros donos desse instrumento, devem controlar os bancos emissores de moeda e acabar com a emissão de moeda dos bancos privados, ou seja, obrigá-los a ter o dinheiro que emprestam, como fez, recentemente, a Islândia. Deveríamos começar por um referendo europeu ao artigo 123 do Tratado de Lisboa, que proíbe os Estados de se financiarem directamente no BCE e os obriga a ir aos “mercados”, aos grandes bancos, que, esses, se financiam no BCE a taxas de zero vírgula qualquer coisa!
… mas estamos ainda tão longe da democracia!

sábado, 4 de julho de 2015

Símbolos, sincronicidades.

O Sol vai alto, é o Verão. Mas, no Solstício, pelo S. João, começou a baixar no horizonte. É o símbolo da Consciência, da nossa ligação ao Cosmos, ao que nos transcende.
Plutão, o deus que reina no Hades, no mundo subterrâneo das sombras, que o aventureiro Ulisses chegou a visitar, onde “vivem” os mortos, é, também ele, um símbolo de ligação ao transcendente: a morte transcende-nos! Sendo aquilo que não podemos controlar, a morte, Plutão é um símbolo do poder, da destruição do que já é lixo, para dar lugar ao novo. É também símbolo das riquezas, porque o ouro vem de dentro da Terra. E símbolo da prisão, da prisão ao mundo, à riqueza, ao poder e ao sexo -- e da libertação dela.

É curioso que, nestes dias, estes símbolos estejam de lados opostos, no céu, com a Terra, connosco, de permeio. O Sol demora um ano a dar a volta ao zodíaco, a larga circunferência celeste. Opor-se-à exactamente a Plutão no dia seguinte ao do referendo grego. Ganhará a Luz da Consciência ou o poder da morte? Plutão, “a grande transformação”, não poderá estar mais iluminado pelo Sol, pela nossa consciência: imagino que seja um momento privilegiado para vermos o poder das “instituições”, o poder do dinheiro, e a necessidade de as transformarmos radicalmente, de criar novas!
E essa consciência será fundamental para nos libertarmos da tirania do sistema financeiro, para inventarmos as novas instituições, a partir de 2024, quando estas tiverem deixado de existir.

Paradoxalmente, Varufakis é sensato, sabe do desmedido poder do dinheiro no nosso tempo, imagino que saiba que terá que deixar de ser assim mas que ainda é cedo. E deve saber da importância histórica do referendo grego, que será um momento de lucidez, de consciência global de que é tempo de mudar, de que vivemos os anos finais do poder financeiro -- quer ganhe o SIM quer ganhe o NÃO. Fica aqui a entrevista dele, de hoje, ao El Mundo, em castelhano.

O Poder é assunto central das sociedades. Enquanto alguns de nós vêm a anarquia como uma utopia para a qual caminhamos, sociedades em que não exerçamos o poder sobre os outros mas apenas sobre nós mesmos, para nos aperfeiçoarmos -- outros combatem esse caminhar histórico para o desconhecido e tratam de ganhar poder, passam a vida nisso. Alguns são mesmo viciados, porque o poder vicia. Chegam a ser sabujos, chegam a mentir, para ganhar umas migalhas de poder. Dizem que é “humano”.
Deixo aqui uma frase “desumana”, de Maio de 68: “É proibido proibir!”
A consciência livre de cada um fará o melhor para todos. São os donos do mundo quem precisa de escravos, não nós. E não precisamos de donos, claro!

terça-feira, 30 de junho de 2015

Os sensatos gregos

O governo grego pediu, há poucas horas, um novo resgate ao Mecanismo de Estabilidade Europeu, que inclua reestruturação da dívida e que permita à Grécia recuperar da agiotagem que tem sofrido. Aqui fica a carta do governo grego ao Mecanismo de Estabilidade Europeu, assinada por Alexis Tsipras.
Angela Merkel recusou, como se fosse dona de Europa, como se a carta lhe fosse dirigida.
“Quem manda?”
Fala-se muito em falta de liderança na Europa, do absurdo que é afundar a Grécia no momento em que Europa é atacada por uma nova invasão muçulmana, que faz lembrar a queda do Império Romano do Oriente (o Estado Islâmico é uma ameaça real) -- mas o que falta a Europa é Democracia. Os ministros das finanças dos países do Euro, que se reúnem de urgência hoje à noite, são meros secretários de uma oligarquia financeira que veneram e que só o povo saberá questionar.

O governo grego não é apenas patriota mas tem patriotismo europeu, noção estranha aos outros governos de Europa… quando um Chefe de Estado, como o nosso, desvaloriza a possível saída da Grécia do Euro (e da União Europeia?), é o mesmo sistema de democracia representativa que é posto em causa. Antes de se ir para Chefe de Estado, ou para Primeiro-ministro, dever-se-ia passar por um exame de História, de Geografia, por um teste de bom-senso… mas creio que só a Democracia Directa, como na Grécia Antiga, em que esses cargos não têm importância e são sorteados, pode evitar que decisões vitais sejam tomadas por uma oligarquia na sombra.

Quando, em 1940, o embaixador de Mussolini apresentou um Ultimato ao primeiro-ministro grego, Ioannes Metaxas, para as tropas italianas da Albânia ocuparem posições estratégicas na Grécia, a resposta foi um lacónico NÃO, que lançou a Grécia na II Guerra. O atraso que, mais tarde, os gregos provocaram à invasão da Rússia pela Alemanha (aproveitando a soberba de Hitler!), foi crucial para a vitória aliada:
Donde não diremos que os gregos lutam como heróis mas que os heróis lutam como gregos!
“Não”, Ohi, espero seja a resposta ao referendo de Domingo!

Mas este artigo faz pensar! Somos completamente manipulados, pensamos o que querem os donos do mundo. E, enfim, um artigo para compreendermos (e os gregos, sobretudo!) porque é que a alta finança quer os terrenos da Grécia baratos, porque lhe convém a bancarrota da Grécia!

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Notícia

O Primeiro Ministro grego, Alexis Tsipras, convoca um referendo para decidir se a Grécia deve aceitar o empréstimo, o qual traz exigências que lhe retiram soberania.

A Democracia é directa ou não é democracia. As decisões tomadas por “representantes” dos cidadãos são a forma actual da oligarquia. Deveria haver referendos para todas as propostas de lei -- o que é possível, neste tempo da informática.

Que Áries inspire os gregos a honrarem a sua história antiga. O tempo é de heróis.

27-6-2015 Deixo aqui uma entrevista a Alexis Tsipras, no final de 2012, mais de uma ano antes de ser governante. E o artigo de hoje de Pacheco Pereira, no Público.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Os golpes de Estado no século XXI

Em vésperas de eleições legislativas, com sondagens que sugerem que os partidos que serão mais votados sejam os mesmos que assinaram o Memorando da Troika, entregando assim a soberania do País, como se para tal tivessem procuração nossa, como se, por os elegermos, lhes tivéssemos dado carta branca -- faz sentido pedir aos eleitores que se informem sobre o que se passou. Este trabalho, de um jornalista alemão, é muito esclarecedor:

terça-feira, 9 de junho de 2015


A esperança mundana, a que os homens lançam o coração ao assalto
Torna-se em cinzas -- ou prospera; e logo
Como a neve na face poeirenta do deserto
Brilhando uma horita ou duas -- foi-se.

    XIV rubai de "The Rubaiyat of Omar Khayyam"
    Traduzido da tradução para inglês de Edward Fitzgerald:

The Worldly Hope men set their Hearts upon 
Turns Ashes—or it prospers; and anon, 
Like Snow upon the Desert's dusty Face 
Lighting a little hour or two—is gone.

     Mais um, o LII:

E essa Taça invertida a que chamamos O Céu,
Debaixo da qual, gatinhando, engaiolados, vivemos e morremos,
Não levanteis as mãos para ELA, para ajuda, que Ela
Segue rolando, tão impotente como Vós ou eu

And that inverted Bowl we call The Sky,
Whereunder crawling coop't we live and die,
Lift not thy hands to IT for help—for It
Rolls impotently on as Thou or I


Há 900 anos Omar Khayyam tinha 67 e ainda viveria mais 16; Os Rubaiyat, esses, sobrevivem

sábado, 30 de maio de 2015

Arlindo Cunha na Escola Agrícola

Tivemos, ontem, um jantar/debate, organizado pela Associação Amar Santo Tirso e pela Câmara, na cantina da Escola Agrícola. Quem se inscreveu, pelo email da Associação, pagou 12,5€, comeu bem, e pôde ouvir Arlindo Cunha, à vontade, exprimindo-se com clareza e convicção. Aquilo em que insistiu foi na necessidade de convencer as “grandes superfícies”, os “centros comerciais”, que apareceram pelo país todo, a comprar produtos agrícolas frescos, localmente. Disse-nos que, se nos vêm “espoliar” dos nossos recursos, deveriam, como contrapartida, favorecer os agricultores, comprando, dando-lhes um escoamento seguro dos seus produtos.
Falou do PAC, a Política Agrícola Comum do Mercado Único europeu, que consistia em garantir um preço aos agricultores, mesmo que o mercado falhasse, política criada para incentivar a produção mas que levou a um excesso desta e foi sendo alterada, sobretudo pela crítica inglesa.
Arlindo Cunha insistiu no sucesso da agricultura portuguesa, que se modernizou e aumentou a sua participação no PIB e nas exportações.
Pareceu-me um “social-democrata”, ou seja, pareceu-me ser a favor de um capitalismo regulamentado, embora não tenha criticado, directamente, esta recente fé na desregulamentação, que aqui nos trouxe. Confiar que as grandes superfícies venham a fazer o papel das feiras e das cooperativas pareceu-me ingénuo. Mas foi uma boa palestra, com boas respostas a algumas perguntas da assistência.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Os três FFF

Antes de Abril de 1974, num país em que havia censura, imaginávamos que bastaria acabar com ela, com o medo de falar, para que a alienação  em que vivíamos, caricaturada nos três FF, o Fado, Fátima e o Futebol, acabasse!
Santa ingenuidade! A manipulação informativa a que estamos sujeitos hoje, livres da censura, é milhares de vezes maior e cresce exponencialmente. Os três FF, agora, acompanham-se do alfabeto todo! Não estamos alienados, apenas, vivemos num manicómio sem muros e duvidamos que haja outro viver…
Os “adeptos” de um club de futebol não passam de um sintoma de uma sociedade doente, cercada de sociedades doentes.
A Liberdade é uma palavra a que, alienados, damos significados tolos, como o de ganhar o Euromilhões!

A causa da doença? Um vírus a que chamo “oligarquia financeira internacional” e a que os americanos chamam o “complexo militar- industrial” mas que, embora seja responsável pelo funcionamento do manicómio, funciona na mesma alienação que provê. Não há “maus”, apenas doentes terminais, tão manipulados pelo sistema abstracto em que vivemos como os mais tolinhos dos “adeptos”.
Há sempre esperança, claro:-):
"Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo ( além da sífilis, é claro). Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…"
Chico Buarque, in “Fado Tropical

sexta-feira, 15 de maio de 2015

António Sampaio da Nóvoa

Tanto do ponto de vista racional como do ponto de vista emocional, António Sampaio da Nóvoa é a melhor escolha democrática para o cargo de Presidente da República.
É preciso ajudar Europa a sair da prisão em que se meteu e os povos podem dar voz a representantes que, directamente eleitos, sem ligação à oligarquia financeira internacional, a libertem, em Paz.

Acho graça aos símbolos e à escrita de um outro António, Fernando (António de Nogueira) Pessoa. Esse falou da falta de organização dos portugueses, em contraste com os nossos vizinhos espanhóis. Ora este diz, nesta sua entrevista ao Público, que vê o contrário:
"Sei que é o País que vem nos livros, que somos desorganizados, pelo desenrascanço, mas não é o País que eu conheço. Se há coisa que os últimos quatro anos nos mostraram foi uma enorme capacidade de iniciativa dos portugueses e a capacidade de organizar soluções para muitos problemas sociais. Esta austeridade ainda não acabou com o País porque essas redes sociais, essa capacidade de iniciativa, apareceu em força nos últimos quatro anos.”
O símbolo do nosso acordar, do regresso de Portugal ao seu papel na História, é D. Sebastião, que há de voltar numa manhã de nevoeiro, como se diz. Este Sr. da Nóvoa, vindo do velho Alto Minho, das canções do Zeca Afonso e do novo Brasil, é uma bela sincronicidade, é o Presidente que espero a maioria dos portugueses escolha. 

Deixo aqui a Entrevista ao Público:
Sampaio da Nóvoa: “O meu ponto de partida é o da crítica das políticas de austeridade” Áurea Sampaio e Paulo Pena10/05/2015 - 08:40

Considera “insuportável” a ideia de “arco da governação” e garante que a coisa que sabe fazer melhor é promover entendimentos. “Estabilidade, para mim, não é ficar tudo na mesma.” Candidata-se para “construir um projecto de mudança em Portugal e dar um contributo para a mudança na Europa”.

A entrevista durou mais de duas horas. À saída da Sociedade Portuguesa de Geografia, no centro de Lisboa, António Nóvoa, 60 anos, foi abordado por um desconhecido que já o tratou por “senhor Presidente”. Ele, que se diz “muito tímido”, lá foi, ouvir o que tinha para lhe dizer aquele português - porque diz que gosta de ouvir. Antes, mostrara-se convicto de que “as pessoas estão cansadas dos discursos de plástico, do politicamente correcto, do que não se pode dizer isto porque se pode perder cinco votos”. Ainda sem o apoio oficial de nenhum partido, e depois de ter renunciado ao salário de professor na Universidade, o antigo reitor elege uma palavra que vai definir o resultado das eleições presidenciais de 2016: “Confiança.”
Se lhe pedisse para se apresentar aos portugueses como o faria?
[Pausa] Do ponto de vista biográfico, como alguém que é do Norte, de Valença, que viveu sempre no Minho até aos 10 anos de idade, muito marcado pela minha mãe, mas sobretudo pela família do meu pai, com os seus antepassados, como Alberto Sampaio, e toda essa Geração de 70. Uma família do Norte, muito religiosa, católica, unida. Continuamos a encontrar-nos nas festas de Páscoa, Natal. Com uma marca muito forte do meu pai, juiz, sobretudo pelo lado da independência, da imparcialidade. E depois um percurso meu, sempre marcado por uma certa diferença. Por raramente ou nunca ter optado pelo caminho mais previsível. Gosto de pensar-me como alguém que promove mudanças. Desde os meus 16 anos, quando cheguei a Coimbra, até hoje, já lá vão 44 anos..., tive uma preocupação muito grande com as questões políticas, com as causas sociais, da igualdade, que marcam o que é hoje a minha maneira de pensar.
Estudou Matemática, Teatro no Conservatório, Ciências da Educação e História. Foi inquietação ou inconstância?
Foi sempre inquietação. Ontem [quinta-feira] o professor José Barata Moura, que teve a generosidade de proferir o elogio do meu doutoramento honoris causa na Universidade do Algarve, numa passagem da sua intervenção brilhante, dizia que eu era um transportador de desassossegos. Eu revejo-me nesta frase. Para lhe dar um exemplo: luto até ao último minuto por uma coisa, mas ainda ela não está acabada, eu já estou a pensar noutra.
Como é que este percurso o pode ajudar, nas suas ambições actuais?
É muito difícil falar de mim...
Mas tem de se dar a conhecer, porque só as elites o conhecem. Tem essa noção?
Mais ou menos... É muito impressionante o fenómeno de notoriedade das últimas semanas. Não posso ir a lado nenhum sem que venha uma pessoa falar comigo, que me cumprimente, que me dê um recado.
Isso ainda não o incomoda?
Não me incomoda absolutamente nada. As pessoas colam à vida académica, e percebo que colem, este peso do professor catedrático, que é uma designação pela qual nunca me apresento, Sou professor, ponto. Isso é mil vezes mais importante. Colam à ideia do reitor um elitismo que eu não tenho. Na universidade jogava à bola com os funcionários da reitoria. Hoje jogo à bola todas as semanas com alguns dos meus amigos de há 40 anos. Mas voltando à pergunta inicial, vivi em tantas realidades diferentes, Lisboa, Coimbra, Genebra, Paris, Nova Iorque, Aveiro, e isso deu-me uma mundividência que me dá facilidade para adaptar-me aos ambientes. A outra marca do meu percurso é a independência.
É um tímido sociável?
Sou. Sou muito tímido e por isso é que gosto de falar para muitas pessoas. Gosto das conversas a dois ou a três, como esta em que estamos agora, e gosto da fala anónima. Não gosto do ambiente intermédio, que é aquele das 100 pessoas, em que mais ou menos nos conhecemos... Na verdade, eu tenho a noção exacta de onde vem a minha aprendizagem de falar em público. Vem do Brasil. Fui pela primeira vez convidado para ir ao Brasil em 1994, pelo Paulo Freire. Daí até agora, em cálculos redondos, por baixo, eu devo ter feito umas 500 ou 600 palestras no Brasil.
Talvez por isso alguém disse que gostava que se candidatasse à Presidência do Brasil.
Esse alguém, que eu acabei de saber agora, ao almoço, é o senhor Cristovam Buarque [senador, ex-ministro da Educação, consultor da Unesco e do PNU, quarto classificado nas
eleições ganhas por Lula], que é uma imensa referência no Brasil. Já tive de falar em estádios de futebol... Na minha última palestra, que era uma coisa para professores universitários, toda bonitinha, chego lá e era um ginásio de basquete, com quatro mil miúdos de 17 anos. Isso deu- me um treino impressionante. Por isso, em relação à timidez, funciono mal no registo intermédio.
Já percebemos que os comícios não vão ser um problema. Mas também se diz que é muito frugal e não gosta de comprar roupa. Como se vai adaptar?
Terão de me perguntar daqui a uns meses. Nós nem sempre conseguimos ser completamente autênticos, mas há uma marca de procura de autenticidade na minha vida. Nada me indicava para ser reitor. Mas acho que exerci o cargo sem nunca renunciar à minha frugalidade, à minha sobriedade. Fui algumas vezes de bicicleta para a reitoria, e não era para fazer um número, nunca tive nenhum fotógrafo atrás a tirar fotografias. Fui porque sempre que posso não utilizar automóvel não utilizo.
Imagina-se a ir de bicicleta ou de transportes públicos pra Belém?
Imagino. Não me parece ser uma coisa impensável.
Há o protocolo e a segurança, e o Presidente da República não manda nelas, sabe disso?
Veremos... [Risos] Falamos daqui a dois anos. É evidente que há equilíbrios. E a minha maneira de ser, essa frugalidade, não pode nunca ser vista como falta de dignidade na representação da República. Mas, e isto são coisas que eu não digo muito, por essa frugalidade, sempre que fui representar a Universidade nunca recebi um tostão de ajudas de custo. Nunca quis. Acredito que as pessoas percebem essa autenticidade. As pessoas estão um bocadinho cansadas é dos discursos de plástico, do politicamente correcto, do não se pode dizer isto porque se pode perder cinco votos. Acho que esta eleição se vai ganhar na palavra confiança. Se as pessoas perceberem que lhes falo com autenticidade.
Diz que quer fazer uma campanha diferente. Como?
Quero fazer uma campanha de redes animadas pelas pessoas. Não quero ter uma campanha centralizada, com directivas. Quero que as pessoas se organizem. Muitas vezes vão acontecer coisas com as quais eu não esteja inteiramente de acordo, mas quero que isso venha de um movimento de baixo. Nos últimos dez dias, felizmente, já são muitos milhares.
Assim à partida parece um pouco anárquico. Uma campanha tem mensagens...
Há esse risco, é evidente, mas é diminuído quando temos uma estratégia, linhas de candidatura e agora de seguida a carta de princípios, até ao final de Maio. Quem quiser colaborar fá-lo neste enquadramento. Havendo esse risco, ele é infinitamente menor do que o de uma campanha centralizada, com directivas definidas. Preferirei sempre morrer ingénuo do que amargurado. Acredito na liberdade das pessoas. Recebi há duas horas um sms de pessoas que eu não conheço que se querem organizar, “não sei se há problema, mas nós sempre estivemos ligados ao CDS”. Não tem nenhum problema. Se aquelas pessoas se identificam comigo, e com as linhas da campanha, eu quero é que as pessoas se organizem.
Mas os portugueses não costumam ter muita iniciativa de organização. Sem estrutura vai conseguir ter um fio condutor?
O fio condutor vai ter de ser dado por mim. Uma candidatura presidencial é unipessoal. Não há 10 pessoas a falar. O único compromisso que conta é o meu. Isto dito, eu não tenho nada, nada, o preconceito sobre os portugueses que definiu. Eu sei que é isso que dizemos sobre nós próprios há 300 anos. Todos os intelectuais e toda a conversa sobre os portugueses aponta nesse sentido. Sei que é o País que vem nos livros, que somos desorganizados, pelo
desenrascanço, mas não é o País que eu conheço. Se há coisa que os últimos quatro anos nos mostraram foi uma enorme capacidade de iniciativa dos portugueses e a capacidade de organizar soluções para muitos problemas sociais. Esta austeridade ainda não acabou com o País porque essas redes sociais, essa capacidade de iniciativa, apareceu em força nos últimos quatro anos.
Não vai ter comissão de honra, nem comissão política?
Comissão de Honra, no sentido tradicional, não. Mas é evidente que a partir de certa altura queremos divulgar os nomes de muitas pessoas que estão a dar apoio a esta candidatura. Esta é uma candidatura republicana. Não fazemos convites. Quem quiser vir, que venha. Até agora há um grupo de cerca de 12 pessoas, mais operacional, que se encontra quase diariamente. É gente na casa dos quarenta e poucos anos, totalmente voluntárias. Duas ou três vão deixar os empregos para se juntarem a isto a tempo inteiro. Para a semana abriremos a sede. Depois há um conjunto de pessoas com que me reúno, tomo pequeno-almoço, almoço, telefono, sempre de um modo informal. Não gostaria muito que ganhasse organicidade. Quando anunciei a minha candidatura no dia 29 desliguei-me da Universidade. Agora também não tenho salário. Achei que o devia fazer. Iria viver a campanha a achar que devia estar a dar uma aula...
Tirou uma licença?
Sem vencimento.
Quando vier a ter apoios partidários como é que vai ser? Vão integrar-se nessa forma de fazer campanha que defende?
Fico contente por utilizar o “quando”, eu teria tendência a utilizar o “se” [Risos]. Se vier a ter, as pessoas terão de funcionar no interior destas dinâmicas. É uma característica pessoal: a pior coisa que me podem fazer é tentar encostar-me à parede. Há muita arrogância no poder em Portugal. As pessoas a mim levam-me por bem, mas constrangendo-me é impossível. Eu vou fazer o possível dos impossíveis. Com uma entrega total. Mas quem vai fazer isto são os portugueses.
Já sabe quanto vai custar a campanha?
Temos um cálculo. Queremos fazer uma campanha com poucos custos. Não teremos um aparato centralizado que depois terá de colocar outdoors nas rotundas todas do País. Depois de termos analisado todas as campanhas anteriores, para fazermos uma campanha séria, que chegue às pessoas, precisamos de cerca de um milhão e meio de euros. É um bocadinho menos do que se gastou em campanhas anteriores. Se este processo correr bem, se tiver os níveis de votação que pensamos que venha a ter, a subvenção do Estado cobrirá esse valor. Teremos de recolher alguns donativos, eu terei de recorrer às poucas poupanças que tenho. Não é líquido que se possa pedir um empréstimo... Se correr mal, o risco é meu e estou cá para isso.
Diz-se um homem de esquerda. Nunca houve maiorias de coligação à esquerda. Acha que o sistema político está demasiado inclinado ao centro?
Acho que mais do que inclinado ao centro, criou-se uma convicção de que só se podia governar ao centro. É o famoso “arco da governação”, que eu acho uma coisa verdadeiramente insuportável, até porque é um conceito que logo à partida exclui 20% dos portugueses. A inevitabilidade do centro é a inevitabilidade de certas políticas. Sou completamente contrário a isso. As sociedades são de uma enorme pluralidade e essa pluralidade deve ser respeitada ao limite. Daqui decorre uma segunda questão central: a
capacidade de fazer entendimentos. A partir do respeito pela diversidade, temos de ter a capacidade de fazer os entendimentos que resultem da vontade popular.
Sente-se capaz, como Presidente, de pôr os partidos a falar e a fazer entendimentos?
É a história da minha vida. Sempre o fiz na Universidade. Eu não faço consensos para vivermos a nossa vidinha o melhor possível, faço consensos em torno de projectos. Sinto-me muito capaz disso. É talvez de todas a coisas a que faço melhor. Essa amálgama do centro é uma coisa muito irritante em Portugal.
Daria posse a um Governo minoritário?
Claro. Não vejo nenhum drama nisso, desde que seja possível encontrar entendimentos e equilibrios que permitam encontrar estabilidade na governação. É muito importante haver estabilidade e que os portugueses sintam que o Presidente garante essa estabilidade. Mas estabilidade, para mim, não é ficar tudo na mesma.
Cavaco Silva já fez saber que não dará posse a um Governo minoritário. Se vencer as eleições à primeira volta, embora só tome posse a 9 de Março, vai estar a assistir ao processo de formação do Governo e às negociações do Orçamento de fora. Tem disponibilidade, depois de eleito, para ajudar o Presidente actual, caso ele lhe peça?
Em democracia, os mandatos cumprem-se até ao último dia. O Presidente tem um órgão próprio de aconselhamento, que é o Conselho de Estado. Contudo, se o Presidente entender que ouvir-me nesse contexto pode ser-lhe útil, estarei sempre disponível, como sempre estive. Mas a responsabilidade pertence ao actual Presidente.
Consegue ver-se a dar posse a um Governo do Bloco Central?
Consigo. Se me pergunta se esse é o meu ponto de partida, não é. Espero que seja claro para toda a gente que o meu ponto de partida é o da crítica das políticas de austeridade.
Ouviu Carvalho da Silva dizer que ainda não existem candidatos que ponham em causa a austeridade?
Não, não ouvi. A primeira parte do meu discurso de apresentação de candidatura é toda sobre isso, uma crítica das políticas de austeridade. Fi-lo de maneira intencional, poderia ter começado pelos poderes presidenciais. Quis deixar essa marca na minha declaração de candidatura. Isso para mim é muito claro. Quando se fala em Portugal de Bloco Central o que se fala é em tornar inevitáveis essas políticas de austeridade. Não sou favorável a isso. Mas o Presidente tem de tirar as conclusões da vontade das pessoas. Eu não posso substituir-me a essa vontade. Se num determinado momento resultar que essa é a única possibilidade, é evidente que terá de se encontrar uma solução.
Gostaríamos de saber o que faria em algumas situações concretas. A primeira é: assinaria o Acordo de Parceria Transatlântica para o Comércio (TTIP)?
Antes deixe-me esclarecer um ponto. Um candidato a Presidente tem de ir um bocadinho mais longe do que nas suas funções enquanto Presidente, O Presidente não tem funções legislativas, nem executivas, e tem de respeitar isso até ao limite, mas um candidato não pode responder a tudo dizendo que não tem nada para dizer... Vou responder a algumas questões por essa razão. Em relação ao Tratado Transatlântico tenho algumas reservas sobre a maneira como está a ser negociado. Creio que podemos estar de novo perante uma situação que já nos aconteceu antes com a União Europeia, que é aderirmos a um espaço comercial mais amplo para o qual a nossa economia pode não estar preparada. Estamos sempre a jogar um jogo, como nós percebemos hoje em relação ao Euro, que parece aberto, de iguais, mas onde uns têm umas armas e os outros têm armas diferentes. Depois tenho a sensação de que sempre
que estão em jogo tratados em que intervêm os Estados e grandes grupos económicos, quase sempre são os interesses económicos privados que acabam por prevalecer. Ou porque têm melhores advogados, consultores ou influência. Quase nunca, ou nunca, estas coisas resultam a favor do público ou dos Estados.
Se houver um novo tratado europeu, pondera convocar um referendo?
Pondero, sim. O Presidente não pode convocar um referendo por iniciativa própria, pode criar condições para que isso aconteça. Se houver nos próximos anos uma revisão dos tratados, temos obrigação de fazer um debate muitíssimo maior e mais informado. O Presidente deve sinalizar perante os partidos que não ratificará um tratado se não houver um amplo debate na sociedade. E em casos de tratados que afectem de forma significativa a soberania nacional o Presidente pode dizer que entende que devem ser submetidos a referendo. O meu entendimento é que se o Presidente é chamado a ratificar é porque pode escolher entre ratificar ou não. Se não, não vale a pena... Alguém traz um carimbo e assina pelo Presidente. O que se verifica hoje é que a nossa adesão à Europa foi sendo feita de forma pouco informada.
Mário Soares promovia debates com as célebres presidências abertas. Vai fazer o mesmo?
Julgo que os portugueses precisam de um Presidente mais próximo, mais presente, que as ouça mais, que seja capaz de perceber os seus problemas. A minha ideia é ter presidências descentralizadas, onde eu posso estar um mês num lugar, outro mês no outro, mas é claro que é preciso ponderar com muito cuidado, porque se isto tem custos é melhor ninguém se meter a fazê-lo. A dimensão da coesão social - da pobreza, da luta contra as desigualdades, contra a austeridade que está a massacrar o povo português - e da coesão territorial - a desertificação, o despovoamento, aldeias inteiras que estão a desaparecer - são duas áreas centrais da minha acção presidencial.
Defende a renegociação da dívida “até ao limite do possível”. Como é que isso pode ser feito?
O limite nós não sabemos nunca. Quem está na ciência sabe que nunca fazemos o que é possível, porque isso já os outros fizeram. Nós vamos tentar descobrir uma coisa impossível, que nunca ninguém fez até agora.
Daí a pergunta: vendo o que se está a passar com a Grécia, não é impossível?
Vai ser obviamente um processo duro e difícil. Há compromissos que foram assumidos e nós, honradamente, temos de cumprir. Mas não precisamos de o fazer de forma passiva, ordeira, e como bons alunos. Podemos fazê-lo explicando em todos os lugares, dentro e fora de Portugal, fazendo alianças com outros países em situação idêntica, tentando criar as condições mais vantajosas, para que o problema - uma dívida insustentável - possa ganhar a possibilidade de ser renegociada. Sem isso resta-nos o caminho de sermos um país pobre, onde há cada vez menos capacidade competitiva, onde há cada vez menos jovens, que vai de ano para ano piorando nas suas condições sociais. Mas há muita coisa que vai acontecer nos próximos meses ou anos e nós não conseguimos sequer imaginar agora.
Para já, os credores estão a fechar a porta a Varoufakis e a Tsipras...
Acho que o jogo ainda não chegou ao fim... Está a tirar conclusões do processo grego que eu ainda não sou capaz de tirar. Vamos ter de seguir o que se segue na Grécia. Sabemos uma coisa: as duas últimas grandes eleições na Europa, na Grécia e no Reino Unido, deram uma vitória considerável a correntes que, sendo completamente diferentes, têm ambas um grande cepticismo em relação a esta Europa. É um pouco triste o que vou dizer agora e até me custa, eu que sou um europeísta de sempre: a União Europeia conseguiu esta coisa extraordinária
que é transformar-nos a todos em eurocépticos. De facto, o que está a acontecer não pode deixar de nos trazer uma enorme descrença em relação à União Europeia. Alguma coisa vai ter de mudar, e seriamente. Este problema não é meramente financeiro, é político. Estamos a falar de política, na Europa.
Mas a esquerda não conseguiu, até agora, nenhuma alternativa à austeridade...
A palavra-chave da sua pergunta é “até agora”. Por isso é que estamos aqui e agora, para poder construir um projecto de mudança em Portugal e darmos um contributo para a mudança na Europa.
Sente que é essa a sua responsabilidade?
Completamente. Dou-me a este projecto, com todos os riscos no plano pessoal, com uma enorme crença de que posso contribuir para uma mudança de fundo da política em Portugal, Se nós acreditássemos que esta Europa não vai mudar, e que as políticas de austeridade são uma inevitabilidade ficávamos em casa a protestar contra qualquer coisa...
Numa entrevista recente disse que na crise de 2013, com as demissões de Portas e Gaspar, devia ter havido uma renovação da legitimidade democrática. Com eleições?
Sim.
Em que se baseava?
No princípio constitucional do regular funcionamento das instituições democráticas. Havia uma quebra forte de confiança no programa político, com a demissão do ministro que tinha sido o seu protagonista, como a demissão do principal parceiro da coligação. Havia também uma quebra de confiança grande entre o que tinham sido as políticas do Governo e a percepção dos portugueses sobre o que lhes havia sido prometido na campanha eleitoral. Na minha opinião, em alturas dessas, o Presidente deve dar a voz aos portugueses. Uma parte do que se passa em Portugal hoje- o desânimo, a crispação, a animosidade que se sente na sociedade - tem a ver com a situação económica, obviamente, mas tem a ver também com a quebra de confiança no sistema político e com o facto de, na altura própria, os portugueses não terem sido chamados a renovar a legitimidade democrática do Governo.
Acha que este Governo tem menos legitimidade?
O Governo tem uma legitimidade do ponto de vista da votação que é inequívoca. Tem maioria no Parlamento, o Presidente tomou a decisão que tomou, mas há uma legitimidade que vai para além disso, que tem a ver com a confiança dos portugueses.
O Presidente é o comandante supremo das Forças Armadas, sector onde é muito visível o desencanto com o rumo da democracia. O facto de não ter um passado partidário pode favorecer a simpatia desse sector?
Não tenho nunca, em nenhuma circunstância, um discurso anti-partidos. 48 anos chegaram, não precisamos de mais. Sou crítico em relação a certas modalidades dos aparelhos partidários e do seu funcionamento. A Constituição é, agora, como se compreende, o meu livro de cabeceira [risos]. Depois de a ler muitas vezes, cada vez me vou apercebendo melhor que não é por acaso que lá está previsto que os Governos vêm de projectos partidários e os Presidentes de projectos individuais. Porque, de algum modo, essa candidatura pessoal dá uma independência (que eu não digo que quem venha de um partido não tenha) na qual os sectores militares certamente se revêm com alguma simpatia.
Nunca militou num partido, mas teve uma passagem por um partido revolucionário, a LUAR. Pode contar-nos como foi essa experiência?
Nunca me filiei. Participei durante alguns meses nalgumas sessões. Sempre fui muito desalinhado. Nessa mesma altura, no ano de 1974, colaborei com associações de moradores, comissões de trabalhadores e promovi uma das primeiras candidaturas independentes às autárquicas. Chamava-se, se não estou enganado, TMUPA, Trabalhadores Moradores Unidos para as Autarquias, para a assembleia de freguesia da Parede [em 1976].
O que o levou a fazê-lo?
Houve um período pequeno, mas muito importante na minha vida, em que tinha uma ligação muito forte ao Zeca Afonso. Foi o Zeca que me levou a algumas dessas sessões. Hoje olho para aqueles momentos como os mais importantes da minha vida. Parece que vivíamos a sensação contrária da que vivemos hoje. Naquela altura tínhamos a sensação de que tudo era possível e que bastava decidirmos à volta desta mesa que uma coisa ia acontecer para que ela acontecesse. Hoje é ao contrário. Façamos o que fizermos, digamos o que dissermos, parece que não muda nada. Recuando, consigo hoje perceber que muita gente se tenha sentido agredida naquela altura. Mas uma coisa que sempre foi muito importante para mim, apesar de ter enormes convicções, é nunca ter sido capaz do menor gesto de violência.
Mas rejeita qualquer tipo de violência, por convicção ética?
Rejeito qualquer tipo de violência. Não sou capaz. Tenho um compromisso, que levarei até ao fim, com a minha mãe que, pouco antes de morrer me pediu não para não dizer mal de ninguém.
E está preparado para o contrário, para que digam mal de si?
Estou completamente preparado para isso. Percebi nas últimas semanas que há uma espécie de lógica de intimidação. Como se dissessem “esta pessoa não tem o direito de jogar este jogo que não lhe pertence”. Não li a maioria das coisas que escreveram, decidi não ler. É impossível initimidarem-me. Esses ataques descabelados reforçam-me. O Padre António Vieira - não posso fazer muitas citações, senão acusam-me de fazer muitas citações - dizia qualquer coisa assim, se não erro. Ainda que ter inimigos pareça uma desgraça, uma desgraça muito maior é não os ter. [Risos]
Tem denunciado a promiscuidade entre negócios e política. Que papel pode o Presidente desempenhar nesse caso?
Um papel imenso. Pela palavra, pelo exemplo e por não aceitar a degradação da vida pública por fenómenos de corrupção. Esses fenómenos têm sido gravíssimos na sociedade portuguesa e por isso precisamos de um Presidente que pela sua história de vida e pelo seu exemplo não seja conivente. A palavra transparência é fundamental. Em todos os casos, sejam PPP, sejam privatizações, a transparência é central. O Presidente pode exigir transparência. Mas pode também, ainda que não de uma forma pública, chamar a atenção de governantes. Eu fiz isso, sistematicamente, como Reitor. Não basta sermos sérios, temos de parecer sérios.
Como se define em matéria de costumes?
Liberdade. A minha matriz sobre os costumes é a liberdade. 

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Uma luz acesa

Uma luz acesa
O farol da fortaleza do Bugio, na foz do Tejo

Araras azuis

Portugal:

Pior do que ter um ex-Primeiro-Ministro preso é ter o actual à solta!